BRITEIROS2 <$BlogRSDUrl$>








segunda-feira, julho 09, 2007

A “flexisegurança”


© Desenho de Bandeira - Diário de Notícias

O objectivo prioritário das medidas preconizadas pela “flexisegurança” não é outro senão desregular ainda mais as relações laborais na Europa. É esse o sentido profundo de propostas como “facilitar as transições no mercado do trabalho, apoiando a aprendizagem ao longo da vida e desenvolvendo a criatividade de toda a mão-de-obra”. Se alguém tem dúvidas, vejam-se algumas outras “pérolas” do texto:
“Condições de trabalho e de emprego demasiado protectoras podem desencorajar os empregadores de recrutar durante os períodos de retoma económica”. Por isso, há que “evitar os custos inerentes ao cumprimento das regras relativas à protecção do emprego e dos prazos de pré-aviso e ao pagamento das correspondentes contribuições para a segurança social”. No seu afã pedagógico, o Livro Verde dá como exemplo o modelo dinamarquês que, pelas mãos do actual governo conservador, deixou de ser um dos mais avançados em matéria de direitos sociais para passar a suprimir as indemnizações por despedimento, reduzir os prazos de pré-aviso para cinco dias, eliminar o salário mínimo e extinguir os limites dos horários de trabalho.
O logro do conceito de “flexisegurança” é pois bem claro: trata-se de fazer crer que a melhor (ou a única) maneira de assegurar o emprego é fazer com que os trabalhadores aceitem uma mobilidade permanente, uma ininterrupta reciclagem profissional e que, em última análise, se disponham a servir as empresas que não contraíram com eles compromisso algum, passando a converter-se em falsos “autónomos” que carecem da única coisa que a autonomia pode garantir, a saber, os meios de produção próprios. No limite, teríamos de converter-nos todos em trabalhadores “free-lancers”.
Que em determinados ofícios muito especializados essa seja uma situação até certo ponto vantajosa para o trabalhador (que adquiriu conhecimentos técnicos suficientes para tornar possível possuir meios de produção próprios, com a vantagem acrescida de não ter que estar submetido a horários de trabalho rígidos), isso não significa que o modelo “free-lancer” possa ser aplicável, nem de perto nem de longe, à generalidade dos trabalhos e dos trabalhadores.
Num mercado laboral consumar-se-ia assim o ideal de todo o explorador (eufemisticamente chamado “empregador”): dispor de uma massa amorfa de vendedores de força de trabalho com os quais poderia negociar mano-a-mano, sem a chatice da intermediação sindical, o que colocaria definitivamente o capital numa posição de força absoluta frente ao trabalho.

A primeira etapa do processo de discussão do Livro Verde (uma ronda de consultas públicas) ficou concluída em Março passado. Em Junho ficaram definidas as linhas gerais da “flexisegurança” que foram agora debatidas em Guimarães. Todo o processo deverá culminar em Dezembro, provavelmente com uma série de novas directivas.
É de desejar que os sindicatos não se limitem a pôr paninhos quentes como fizeram com a nefasta directiva Bolkestein, pela qual se regem por exemplo certas companhias aéreas de “low-cost”, registadas em países da UE com escassa protecção laboral (Irlanda por exemplo), para poderem aplicar essas condições de trabalho precárias aos seus empregados em qualquer outro país da União. O velho argumento dos maus negociadores, segundo o qual há que contentar-se com o mal menor para não ter que engolir um mal maior, esquece-se de que, na luta de classes, o maior dos males para os de baixo é deixarem de lutar. Sobretudo, por uma razão: é que os de cima não deixam nunca de fazê-lo.

Etiquetas: ,


:: enviado por JAM :: 7/09/2007 08:48:00 da manhã :: 0 comentário(s) início ::

quarta-feira, junho 06, 2007

Regresso ao futuro

O escudo anti-mísseis que os Estados Unidos pretendem construir na Polónia e na República Checa será parte integrante de um dispositivo nuclear. As bases de mísseis interceptores ficarão localizados a Norte de Varsóvia e a estação de radar situar-se-á ao Sul de Praga, a poucos quilómetros da fronteira austríaca. Oficialmente, a Administração Bush afirma que o objectivo da operação é destruir qualquer míssil que o Irão possa lançar sobre o território americano.
É claro que Vladimir Putin, que não é parvo, não concede nenhum crédito à justificação avançada pela Casa Branca. Tanto mais que, com idêntico pretexto, sob uma outra perspectiva geográfica, os Estados Unidos construíram uma rede anti-mísseis a poucas milhas náuticas da Rússia, ou seja, no Alasca. Efectivamente, depois de ter abandonado unilateralmente o tratado ABM negociado em 1972 por Nixon e Brejnev, o Pentágono precipitou-se na construção de silos que encerram 15 engenhos capazes de percorrer 5500 km. E tudo isso só para poder parar uma possível bombazita voadora pintada com as cores... da Coreia do Norte.
Para além disso, o outro bicho que mordeu Putin chama-se Kosovo. Tanto ele como o seu ministro dos Negócios Estrangeiros não param de martelar que se oporão firmemente à independência daquela região sérvia, se se tratar simplesmente de seguir as recomendações da missão da ONU e não for negociada com os seus protegidos sérvios. Ao longo da actual cimeira do G8 vamos certamente ouvir falar disso. Pois...
Pois não nos devemos esquecer que se se consagrar a soberania do Kosovo, quem vai ter o papel de supervisor vai ser a União Europeia. E então? É precisamente o facto de a União Europeia já ter tomado conta do núcleo dos antigos satélites da União Soviética e continuar a aguçar os apetites de adesão da Ucrânia que irrita sobremaneira os patrões do Kremlin. Por isso provoca tanto nervoso miudinho a ideia de ver um Kosovo independente administrado provisoriamente pela UE.
Só falta saber se os europeus se vão manter unidos — nada é menos certo — tanto sobre a questão do Kosovo como sobre a mudança dos alvos das bombas russas. Por exemplo, os sociais-democratas alemães, que contam metade do governo da chanceler Merkel, apregoam uma política de equidistância. De quê a quê? De Moscovo a Washington. É preciso que se note que, ao mesmo tempo que Putin proferia as suas ameaças, o seu ministro dos Estrangeiros mencionou especialmente que os primeiros lugares que a Rússia procuraria destruir seriam o escudo e as bases americanas... na Alemanha.
Puf! Com a sua grande avançada, Putin convida-nos para um espectacular regresso ao futuro.

Etiquetas: , , ,


:: enviado por JAM :: 6/06/2007 12:46:00 da tarde :: 0 comentário(s) início ::